A tração do inverno



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Há mulheres que pintam os lábios e beijam.
E retocam a face. E não são amadas.
Eu escrevo versos e reponho nuvens
No lugar da página.
Às vezes chove.
E aparece um bar de lágrimas nos meus olhos.
Um pássaro pousa no território da água.

Lembro-me então de um homem,
fechado em casa,
que falava como um poema dentro do inverno:
- a mãe e a neve, nos braços, às portas da morte -

Chorou como uma pomba num manicómio
sobre os excrementos
dos versos.




maria azenha



da loucura do poema




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Do pó nasceu um verso.
Dança na boca da infância.
Queima os dedos,
Como um cristal de neve
Que estala fogo no solo. Avança
Entre muros e flechas
Agarra-se ao poema
Faz uivar uma vogal que exibe deus.

E é um Anjo que transporta um diadema
Na neve do papel.
Bebe das estrelas  no suicídio da página.

A música desfolha o último acorde
No jogo de xadrez
Em que está só uma mulher e um homem.




maria azenha


súplica do centro




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está  no centro
onde me encontra o silêncio
para abraçar o nada

enquanto o poema
assiste à ruína dos seus versos
numa casa abandonada


com seus cavalos de neve
a morte brilha

suplicando
o fim do canto
no crepúsculo de glória





maria azenha

teoria da morte




o inverno
com seus frigoríficos de fogo
abre as portas à crueldade

a música
já sabemos,
dá para o pátio da sede
com vidros altos

o cão que o acompanha
pousa a mão noutro retrato

mas disto só o poeta sabe
sem pronunciar
o seu nome
em folhas pálidas de gelo
e vento





maria azenha



quantas perguntas. quantas respostas.




Não será um bom poema.
Nem sequer um poema.
Vou fazer o papel de uma mulher
que escreveu no próprio dilúvio
a estória dos tempos modernos.

Um homem de 77 anos
foi encontrado morto
dentro de casa.
não cortou os dedos
não telefonou à família
não acendeu um cigarro
não levantou uma faca
nem viu se havia órgãos
dentro do corpo
para negócio.

trazia entre mãos um espelho de misericórdia
e um rosto de vidro e  neve branca.

ficou escrito para epitáfio:

Aqui jaz o teu pai.
Aqui jaz a tua mãe.
Aqui jaz o teu irmão.
Aqui jaz o teu filho.


quantas perguntas.
quantas respostas?

a sociedade nos mantém
nos engorda com antidepressivos.




maria azenha