quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

flor de fogo




flor de fogo



maria azenha
óleo sobre tela 30x40cm

sábado, 14 de Novembro de 2009

poemas vindos do mar




Veio-me ter à mão este papel gravado pelo vento
na súplica de uma gaivota,
que sobrevoava a minha imaginação.

Numa voz quase indistinta
surpreendem-me na bruma as sombras
alongadas no espelho do chão.

Talvez um pássaro da espuma.

É na memória do mar
que os poemas habitam.


maria azenha




segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

díptico





nuvens de luto




Não havia violinos no quarto
Não havia árvores
Sabia apenas o que a noite lhe tinha ensinado,
A habitação do vento
O espelho dos lobos
O pássaro da discórdia
habitando o poço do corpo.

De noite mataram os filhos
neles derramando os cavalos da fome.

Nuvens de luto.



II


um tempo para tudo



Escreve:
No alto da manhã
prepara-se o sol
para uma chávena de chá quente.


caderno e lírios surgem mais tarde

entra,
fecha a porta.

agora precisamos de paz



maria azenha





quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

***




Cheguei há poucas horas.
Os sons do mundo são carvões acesos no meio do escuro.
Minha boca desenhada a diamantes de sangue
rasga poentes videntes com lenços de seda.
Que hei-de fazer? Ainda não sei.
Não acordei.
Observo as nascentes na sombra do lodo.
A linha do horizonte é uma águia vermelha em lua cheia.
Ao lado de bravos lobos o poema tomba,
reúne os seus versos às sirenes do fogo com dentes de neve,
estuda os grandes reinos desertos.

Vai.
Corre.
Contempla variamente as estrelas.
Verás como a lua os envolve.

No lago da noite
os deuses são mais ferozes
do que os homens.



maria azenha

o Holzweg


O filósofo Martin Heidegger, em Holzweg, escreveu: “Na floresta há certos caminhos que frequentemente se perdem, recobertos de ervas, no não-traçado. A gente os chama de Holzwege”. “Cada um segue seu próprio caminho, - continuou ele - mas na mesma floresta. Frequentemente, parece que um assemelha-se a outro. Mas isto é apenas a aparência. Lenhadores e guardas conhecem os caminhos. Eles sabem o que estou dizendo: se empenhar num Holzwege”.
Segundo o velho filósofo, descrente, retirado do mundo na Floresta Negra, todos vão dar em nenhum lugar...
Cheguei a ver a “Floresta Negra”, de longe. É um aglomerado de altos pinheiros na montanha, um lugar de fantasmas.
Talvez ali esteja o sítio apropriado para pensar. Pensar, para Heidegger, é pensar a origem do ser: “Por que há simplesmente o ente e não antes o Nada? Eis a questão.” – escreveu ele na “Introdução à metafísica”. Tradução de Carneiro Leão. “Todos são atingidos uma vez ou outra pela força secreta (da pergunta) sem saberem ao certo o que lhes acontece. Assim num grande desespero, quando todo peso parece desaparecer das coisas e se obscurece todo sentido, surge a questão”. Essa é a questão fundamental da metafísica. Fundamental significa algo sobre o qual uma coisa tem fundamento, tem solo. A pergunta é: Por existe o que existe, e não antes o Nada? Às vezes, creio que temos esses pensamentos essenciais enquanto caminhamos pela floresta. Solitariamente. A floresta é o lugar ideal para o questionamento de tal profundidade. Como disse o poeta: a montanha é alta, mas só o vale é profundo. Eis o caminho que não leva a nenhum lugar. O Holzweg.



texto retirado de " ENTRE TEXTOS"



Claude Levi-Strauss




Numa entrevista em 2005, Lévi-Strauss disse: "Dirigimo-nos para uma espécie de civilização à escala mundial (...) Estamos num mundo a que já não pertenço. Aquele que conheci, aquele de que gostei, tinha 1500 milhões de habitantes. O mundo actual tem seis mil milhões de humanos. Já não é o meu."


"Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele - isso é algo que sempre deveríamos ter presente".

Claude Levi-Strauss
1908/2009


terça-feira, 3 de Novembro de 2009

marcas de um século






As casas acordam manhã cedo.
Ouvem-se ao lado os passos de uma criança
dando os últimos retoques no sobrado.
Nas paredes um coração de uvas e oráculos
que bate desordenadamente as horas.
A cada sinal emitido pela rádio
as marcas de um século com a nova moda biológica.
As nuvens não carecem de torneiras abertas.
O céu desenha os seus últimos retoques em farrapos.
Aqui estamos nós
na aldeia de George Orwell.

Durará este cerco até que do chão brotem
as derradeiras lágrimas das árvores.



maria azenha




terça-feira, 20 de Outubro de 2009

oficina



Photobucket




A neve
não deve mais chamar-se “neve” :
pertencendo - me é na púrpura do meu coração
um outro nome pelo qual sou a única responsável.
Fui eu que a forjei,
guardo a boca e a mão para outra vertigem.



maria azenha


domingo, 18 de Outubro de 2009

alquimia






Na cozinha dormem as minúsculas laranjas .
São quase duas horas da manhã.
O luar entrou pelos lírios da casa,
já lá estive perdida antes, e mais só.
A noite, uma página onde os ourives do sol
trabalham na mais completa escuridão.
Escondidos do tempo nas metáforas do forno
adiantam-se para as montanhas.
As suas vozes tornam-se cada vez mais amáveis e estranhas,
chamam da distância.



maria azenha



na clareira do presente




fortalezas de água, plumas de sílabas, passagens fotográficas de fogueiras
exaltações em pontes levadiças. avisto o texto
da boca alta ortográfica. faltam-lhe mastros, caprichos,
ondas, na ampulheta da viagem; e um exército
de pequenas coisas banais são como um barco velho
que desliza nas linhas horizontais da mesa,
derrubando a morte



maria azenha


sábado, 17 de Outubro de 2009

pela manhã



Respira a neve no encosto alvo da madrugada
rosa branca de água no pedestal da montanha,
naufrágio da prata ou da minúscula aranha,
que nos cedros do coração vem, exacta ,
quebrar a dália do mármore.
Nos sonhos é um espelho de quatro cantos
de olhos maduros nos lagos,
a cabeça entre promessas,
sentenças delirantes do branco
e o vidro das palavras reflectido no chão.
recomeça
buscando em cada superfície pombas de claridade:
nuvens cãs





maria azenha

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Natureza quase morta



O José está ao telefone,
aos quarenta e dois anos
chora como um adolescente.
Pequenas palavras à mesa da cabeceira
rodopiam no espaço
dividido por lágrimas e uma floreira.

Tomou só três,
"não há que ter receio",
chora bem alto ao ritmo do vento .

Tão negra a luz , as mãos são espadas.
Flores, não as quer para nada.

Faço o ensaio de ser náufrago sem barco,
Sentada na cadeira do quarto.



maria azenha


terça-feira, 6 de Outubro de 2009

passada a chuva



Photobucket






era este o verso que faltava
passada a chuva
sobre o teu corpo e o meu,

agora me alegra.

a neve colocou sobre a Terra
a última flor de açúcar



maria azenha

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

a mão treme sobre a flor

Photobucket




A mão treme sobre a flor,

dos rios dos dedos nasce a fonte de Outono
onde se afiam lápis de ouro.

As nuvens trabalham em duplo esplendor
para que a neve
regresse ao seu trono




maria azenha



terça-feira, 29 de Setembro de 2009

o pelicano




Na neve primeira ofereci-lhe o sangue na segunda e na terceira
o negro e o branco.
Nu o pelicano de peito amplo retira a sombra da noite
com as mãos rosadas do manto.



maria azenha




terça-feira, 22 de Setembro de 2009

alva morada




queria semear-me nas algas da casa
num refúgio fundo
antecipar o meu cipreste de neve
sobre as raízes da terra,
para quando os relógios da floresta me viessem chamar
batendo à porta de minha alva morada
eu dissesse:
“ aqui já ninguém está”



maria azenha

cactos sem ternura



I

procuro-te sem alvoroço nas ruas
nas tuas mãos o medo a erguer um muro de escuridão
e a densidade do teu peso.
em todas as outras a lua e o cipreste de ti mesmo
num cigarro que não fumas.
sem tumultos lavas de mim as mãos consumada a cinza.
por entre o ar da noite
jogas a cavalo de roupão e eu o peão de domingo
esmagado por três pingos de chuva.


II

meu filho trouxe-me aqui.
os pinheiros tão altos, tão altos
como o luar que se escapa por inesperadas nuvens .
neles o mar naufraga por andaimes
trespassado pela chuva dos búzios
e silêncios que nos recusam.
- (in)fiel retrato de nós-



maria azenha


terça-feira, 15 de Setembro de 2009

todo o peso é uma questão de Amor






pesei a minha melancolia e angústias:
uma tonelada cada uma,
o que significa que cada uma se prende e atrai de igual modo à Terra.
verifiquei no entanto que a quantidade de massa corpórea de que sou portadora
não me mortifica, e todos os meus livros não pesam mais de 20 quilos,
o equivalente a uma criança de dois anos de vida.
lembrei-me de aferir o peso de uma caneta que normalmente me escreve:
vinte e poucos gramas, pouco mais,
a mesma atracção que a Terra exerce sobre a minha colher de sobremesa.
inquietei-me , e fui pesar a Terra: a agulha não saiu do zero.
(a Terra não se atrai a si mesma.)
reiterando o procedimento quis conhecer o peso de deus :
verifiquei que eu e deus tínhamos pesos iguais.


maria azenha




sábado, 12 de Setembro de 2009

neve e céu



neve e céu.
do gelo outras névoas,
gaiolas de silêncio que vertem Deus.

em suas nuvens anónimas
sobre os hóspedes da terra
ninguém sabe se existirá para assombrar-se
ou para se cercar



maria azenha


terça-feira, 8 de Setembro de 2009

a minha cólera



As mães chegam em silêncio.
As mães crescem em silêncio.
As mães cantam em silêncio.
As mães sonham em silêncio.
As mães partem em silêncio.

Que podes tu escrever sobre elas?
Será melhor que vás.
Tens que cultivar a terra.



maria azenha


sábado, 5 de Setembro de 2009



Para suportar tanto esplendor
abandonei todos os caminhos.

maria azenha